O futebol do futuro será disputado tanto com os pés quanto com algoritmos. Em um esporte cada vez mais pressionado por cifras bilionárias, audiências globais e exigências de transparência, a tecnologia ganhou um peso de protagonista. Sistemas automatizados de arbitragem, por exemplo, prometem reduzir erros e aumentar a eficiência do jogo. A pergunta que surge, porém, vai além da inovação: até que ponto a busca pela precisão ameaça a essência imprevisível do futebol?
A maneira como o futebol será tratado no futuro, foi discutido na tarde desta sexta-feira, 15, durante palestra realizada no São Paulo Innovation Week (SPIW), festival de tecnologia e inovação promovido pelo Estadão em parceria com a Base Eventos.
Antonio Wanderley, CEO do Ibope, expôs a sua predileção pelo futebol raiz e defendeu a espontaneidade do esporte para manter a identificação do torcedor com o imponderável no futebol.
"Não sei se as mudanças que estão acontecendo vão se sustentar daqui a 50, 60 anos. Sou botafoguense e apaixonado pela parte lúdica. Uma vez que a gente olha o futebol como um sistema, como saberemos se as alavancas que o cercam não serão destruídas. Você tem o clube mais elitizado, o da história, o das massas", exemplificou. "Não sou contra a tecnologia, mas eu acredito que temos de valorizar as pessoas, não a tecnologia", completou Wanderley completando a sua linha de raciocínio em defesa do lado romântico do esporte.
,
Na contramão desse pensamento, Paulo Calçade, comentarista da ESPN, com décadas de atuação na área esportiva, vê os tempos atuais de recursos tecnológicos como algo obrigatório. "O futebol é resultado do contexto histórico de onde vive. Daí vamos discutir. Mas isso é impossível de mudar. A criação do futebol foi se transformando com a evolução das regras. É um contexto histórico dentro do jogo. Isso é incontrolável", afirmou.
Durante o debate, mediado pelo jornalista Ubiratan Leal, ele fez uma viagem no tempo para explicar seu ponto de vista e mostrar que o futebol precisa se atualizar aos tempos de transparência.
"Nos dias de hoje, queremos velocidade e a questão da justiça. Fiz o curso de arbitragem em 94 e não se falava em recurso eletrônico porque se acreditava em jogo puro. Hoje as coisas mudaram. O VAR erra. Mas é erro humano. É preciso avançar nessa direção. Se eu avanço nisso, poderemos resgatar o futebol. A essência vai ser sempre o jogador", declarou.
Estádios que entraram para o imaginário dos torcedores pelos grandes jogos, e se tornaram modernas arenas, também entraram no seu discurso. Ele defendeu a modernização desses locais como símbolo desta evolução.
"Quando vejo a galera defendendo o estádio raiz, onde voava certos líquidos que nem sempre eram cerveja, não tenho boa lembrança. O futebol tem uma evolução e isso é muito lindo. O futebol conquista o tempo todo".
0 Comentário(s)