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Os novos donos da música: Como os festivais se tornaram a peça central do mercado nacional

No Rock in Rio 2026, que começa nesta sexta-feira, 4, Gilberto Gil e Elton John estão escalados para o mesmo dia, na segunda-feira, 7, uma das datas mais disputadas desta edição. Neste dia, quem abre o Palco Mundo é Luísa Sonza, que convida Roberto Menescal, um dos pilares da bossa nova. No Palco Sunset, tem Péricles cantando o repertório da Motown, mas a headliner é a cantora islandesa Laufey, sucesso com a geração Z.

Ao longo da programação do Rock in Rio neste ano, outros tantos nomes nacionais se misturam a estrangeiros no line-up, como em 12 de setembro, quando João Gomes é atração do Sunset e a banda de pop rock americana Maroon 5 é a principal do dia. No Palco Mundo, nenhum brasileiro será o headliner.

Nessa equação, há vários membros em busca de um valor para o que eles têm para oferecer. Um curador precisa ofertar uma boa programação para que o festival venda seus ingressos. Um artista tem a sua arte como foco principal, mas já sabe lidar com outras variáveis, como estratégias de carreira e relação com as marcas. Todos buscam, sobretudo, um resultado correto.

Para Zé Ricardo, vice-presidente artístico do Rock in Rio e do The Town, o segredo está em constituir um line-up que dê segurança e destaque às atrações nacionais. "Se você escala o artista errado antes de outro, pode ser uma catástrofe. Se você troca a posição, pode dar super certo", diz ele, que também assina a curadoria do Palco Sunset.

Zé Ricardo lembra de um caso emblemático no Rock in Rio, quando, em 2001, na terceira edição do festival, o percussionista Carlinhos Brown foi alvo de vaias e garrafas de água enquanto cantava a música A Namorada. Naquele mesmo dia, as atrações principais eram Guns N' Roses e Oasis. "Eles querem rock", bradou Brown no palco.

Em 2024, Zé Ricardo chamou Brown para voltar ao Rock in Rio, em um show coletivo chamado MPB Para Sempre. O público vibrou com Água Mineral. "O artista está lá para ser ovacionado e não vaiado", afirma o curador.

Zé Ricardo também cita outro ponto essencial para ele: levar emoção para o público. Isso inclui também ser criativo. Para este ano, ele chamou o cantor de samba Péricles para cantar músicas de Stevie Wonder, Marvin Gaye e outros astros da gravadora americana Motown, instrumento fundamental para a soul music. "Quando um artista grande no segmento dele como o Péricles aceita esse tipo de proposta, ele está me dando a mão e dizendo: 'Vou contigo, mas olhe lá!'. Essa é a responsabilidade que carrego na hora de montar o line-up".

Para este Rock in Rio de 2026, depois de uma edição passada em que o festival teve o irregular Dia Brasil, com apresentação até de sertanejo, Zé Ricardo quer, no Sunset, dar grandiosidade ao palco e deixar para o lado de fora da Cidade do Rock as diferenças que o mundo e a sociedade brasileira têm impingido às pessoas. "Quando você canta a mesma música, temos um momento, um lampejo, de possibilidade. Tudo bem pensarmos diferente, desde que nos respeitemos. O mundo precisa de encontros, abraços e conversa. Parece utópico, mas é prático", diz.

Nesse pensamento, ele traz encontros de artistas que nunca estiveram no Rock in Rio, como Guilherme Arantes, que faz sua estreia lá aos 73 anos, ou que não estiveram na Cidade do Rock em sua gestão, caso do grupo Roupa Nova, que se apresentou pela última vez em 1991 e é a voz do emblemático tema do festival, gravado em 1985.

"Eles achavam que eu não gostava deles. Na verdade, eu esperava pelo momento certo. Quero que eles estejam felizes no palco. Quando não chamo determinado artista em determinado momento, é para protegê-lo. Tenho que garantir que ele esteja no melhor dia, no melhor horário, na melhor circunstância. Que outro festival no mundo tiraria Elton John da aposentadoria?", ressalta, sobre o fato de Arantes e Roupa Nova tocarem no mesmo dia que o astro britânico.

Gilberto Gil também se apresenta na mesma data, dia 7, no Palco Mundo, sendo uma atração antes de Elton John. "Fiz o mesmo com Gil. Liguei para Flora [Gil, mulher e empresária] para ela convencê-lo a aceitar o convite", revela.

É preciso vender ingresso

Marcelo Beraldo, diretor artístico do Lollapalooza Brasil, vê tudo com menos romantismo. "Tudo é business", diz. "Para o festival, para os artistas e para o público", completa.

No Lolla Brasil 2026, realizado em março, mais de 70 convidados se apresentaram, sendo metade deles brasileiros, para um público de 285 mil pessoas em três dias - 45 mil a mais do que na edição anterior, realizada em 2025, de acordo com dados divulgados pela organização do festival.

Entre esses brasileiros estavam nomes como a cantora baiana Agnes Nunes, de 24 anos, que se apresentou embaixo de um sol escaldante, mas conquistou a atenção do público que já lotava a frente do palco para assistir à grande atração do dia, Chappell Roan. O veterano cantor de reggae baiano Edson Gomes, 71 anos, foi alocado em um palco menor, no mesmo horário de outra headliner da edição, a americana Sabrina Carpenter. Para Gomes, em rápida conversa com o Estadão no dia, a apresentação foi "válida".

Segundo Beraldo, escalar o line-up de um grande festival é um processo dinâmico, que sofre alterações ao longo dos anos. Mesmo assim, a base é sempre a mesma: duas ou três atrações capazes de alavancar a venda de ingressos e, no "recheio", um "pouco mais de liberdade" para "ousadias".

O Lolla é uma marca internacional e tem suas bases no rock alternativo, no indie e no pop. A expectativa do público e o negócio da marca, portanto, giram em torno de grandes nomes internacionais, de preferência que ainda não estiveram no País anteriormente. Os brasileiros não são nomes nos quais a organização deposita o êxito comercial do festival.

"Não ficamos apegados à ideia de vender ingressos por conta das atrações nacionais. Alguns até vendem, mas não temos a expectativa de que vendam 80 mil ingressos para determinado dia, como um internacional é capaz de fazer", explica Beraldo.

É justamente por isso que ele diz tentar "abrir ao máximo o funil" e ousar nos convites a brasileiros. "Ouço tudo o que chega até mim. Fuço bastante. Um critério que uso muito é qual show eu gostaria de ver", diz. Ele explica que nem tudo o que gera números consideráveis de execução no streaming se converte em público.

Para Beraldo, no caso dos artistas locais, o Lollapalooza Brasil e outros festivais têm um papel quase social de usar a força de grandes atrações para alavancar a carreira daqueles que estão em fase inicial ou ainda não atingiram a maturidade. "É uma troca muito importante dentro do ecossistema da música. Recicla e espalha a cena. É uma vitrine mesmo, e vemos isso na prática, que atrai novos contratantes."

Um caminho de mão dupla

A cantora e compositora Liniker foi uma das brasileiras que mais participaram de festivais em 2025, ocupando a nona posição do ranking elaborado pela pesquisa Mapa dos Festivais, divulgada em março. O primeiro lugar ficou com o grupo de pagode Menos É Mais e a vice-liderança com rapper Duquesa.

Liniker esteve, por exemplo, no Coala, em São Paulo, onde foi headliner. Também cantou no Doce Maravilha, no Rio de Janeiro. Os eventos consagraram um ano já vitorioso para Liniker, que ganhou três prêmios Grammy Latino - melhor canção, melhor interpretação urbana e melhor álbum de pop contemporâneo em português.

"Liniker, geralmente, se apresenta em festivais multigêneros. O mais legal é justamente chegar a públicos que, geralmente, não a ouvem. Acessamos quem não vai aos nossos shows proprietários. De alguma maneira ela impacta as pessoas, seja pelo som ou pela questão cênica", explica Priscila Melo, manager da Breu Entertaiment, produtora fundada por Liniker para gerenciar sua carreira. "O caminho de qualquer artista para aumentar seu público é fazer show em festival", acrescenta.

Em entrevista ao Estadão em julho deste ano, Liniker falou sobre sua experiência neste tipo de evento. "Se não fossem os festivais, eu não teria construído uma conduta de trabalho, não teria conseguido fazer tantas conexões não só com o público, mas também com produtores e idealizadores culturais", disse. "Tenho muito orgulho de ser uma cantora de festivais. Já fui show de abertura, do meio, show que abria o show de abertura e headliner", brincou.

Liniker abordou um ponto importante na programação desse tipo de evento: em que posição o artista é convidado para se apresentar, o chamado slot. O desafio de curadores e empresários é acomodar todos os convidados, obedecendo aos mais diversos interesses, como a importância do artista naquele momento, o show que ele vai fazer e o uso de elementos cênicos - para muitos, é frustrante não poder ter a iluminação ou telões como recurso.

"Da nossa parte, logo no contrato, já estabelecemos qual tipo de apresentação vamos entregar. Gostamos de ver também quem vai tocar antes e quem vem depois. É uma construção para que o festival valha a pena para quem está assistindo", esclarece a equipe que trabalha com Liniker. Para ela, no entanto, como estratégia, sempre valeu estar em um festival, mesmo que em um slot menos interessante.

Neste ano, porém, Liniker e sua equipe mudaram de estratégia: depois de 10 anos (o tempo que ela tem de carreira), ela passou a investir em sua turnê Bye, Bye Caju, apresentada com sucesso em São Paulo e no Rio de Janeiro e que, até o fim do ano, ainda passará por Belém e Salvador. O que os produtores chamam de show proprietário.

Fátima Pissarra, sócia da Mynd, uma das maiores agências de marketing digital do País, traçou, para este ano, a estratégia de trabalho da cantora Luísa Sonza, escalada para tocar no Rock in Rio no dia 7 de setembro. O pontapé dessa iniciativa foi em abril, quando Luísa se apresentou no festival Coachella, nos Estados Unidos, para lançar seu novo álbum, Brutal Paraíso.

"Nosso foco é tocar em grandes festivais, o que mostra o quanto eles são importantes para reverberar [a carreira do artista]", diz Pissarra. A ideia é fazer o mesmo caminho de Liniker. Neste ano, Luísa faz a peregrinação pelos festivais. Em 2027, a preferência será por shows proprietários.

Luísa se apresentará "cedo" no Rock in Rio, como a primeira atração do Palco Mundo, às 16h40, de acordo com o horário divulgado pela organização. "O festival precisa de uma grande atração que leve o público mais cedo", justifica Fátima. Ela não vê demérito em Luísa abrir os trabalhos do dia. "No The Town [deste ano], Joelma se apresentou pela primeira vez e convidou Gaby Amarantos e Josyara às 4 da tarde. Foi a maior audiência do palco. Muitas vezes, há surpresas."

Os cachês em festivais costumam ser menores. Do outro lado, tem essa vitrine. "Os festivais trabalham com propostas. Normalmente, cobramos menos, pois estar em determinado festival não pode contabilizar apenas o cachê, e sim a reverberação e a possibilidade de patrocínio das marcas que vão estar lá", revela Fátima.

Em janeiro deste ano, Luísa Sonza fez um desabafo nas redes endereçado aos fãs que a criticaram pelos rumos de sua carreira - a cantora, antes do álbum Brutal Paraíso, lançou um trabalho cantando clássicos da bossa nova. A cantora afirmou investir muito para fazer suas apresentações e disse pagar do próprio bolso a estrutura que leva para o palco - na época, ela era atração do Planeta Atlântida, no Rio Grande do Sul. "Quando Luísa falou sobre isso, eu a alertei que ganhamos muito mais com patrocínios. Para nós, eles ajudam a pagar [os custos]", esclarece a empresária.

Sua marca aqui

Os festivais no Brasil são bastante dependentes das marcas para que a conta feche - a venda de ingressos, por mais que cheguem a custar quase R$ 1 mil, não garante a saúde financeira de um grande evento. De acordo com a pesquisa do Mapa dos Festivais, em 2025, quase mil empresas investiram nos festivais. Elas estão por toda parte, do cartão de consumo a estandes. O top cinco dos setores que mais patrocinam é formado por bebidas alcoólicas, bebidas não alcoólicas, bancos, telefonia & internet e beleza & cosméticos.

"As marcas precisam se comunicar com o público no momento em que ele está mais aberto a isso. Os jovens estão mais dispostos, mas, por outro lado, exigem que essa conexão se dê de forma legítima. E a música é a melhor forma de se fazer isso, é evidente", acredita Marcelo Beraldo, do Lollapalooza Brasil.

Trata-se de uma relação de ganha-ganha. As estratégias têm sido aprimoradas. Vale, por exemplo, levar um artista para fazer uma apresentação dentro do estande da marca (como Xuxa no Rock in Rio 2024). Ou colocar celebridades e influenciadores nos espaços VIPs - atualmente, eles também estão com ingressos disponíveis para não famosos. Os brindes também são muito procurados. Tudo pode render foto e postagem nas redes sociais.

Para Fátima Pissarra, o que as marcas querem é algo simples, mas nem sempre fácil atualmente: destaque no meio da multidão - o Rock in Rio e o Lolla podem receber até 100 mil pessoas por dia. Das atrações, elas querem a principal moeda de troca no mundo digital: seguidores. "É mais reverberador elas fecharem com alguém que tem muitos seguidores do que com 10 micro influenciadores que vão estar no festival. É um canhão. As marcas querem ir 'para fora' [do festival] também."

Para Juli Baldi, fundadora da plataforma Mapa dos Festivais, as marcas buscam "autenticidade" e "conexão" com o público. "Elas estão lá para se tornarem mais relevantes. Muitas querem, mas nem todas conseguem, ter também impacto cultural. Mas ela está lá, sobretudo, para vender seu produto, a não ser que sejam donas do festival", explica. "Quem gera impacto cultural são o festival e os artistas. Por isso, às vezes, as marcas se perdem em algum personagem", acrescenta.

Ela concorda com Beraldo, do Lolla Brasil, sobre o caráter comercial dessa relação, destacando a liderança do setor de bebidas. "Um festival é um grandiosíssimo ponto de venda. A marca, literalmente, está nas mãos do público o tempo todo."

Juli conta que já fechou contrato tanto para um artista ser atração de um festival quanto para ser influenciador - e a segunda opção pagou mais. "Um artista se beneficia muito das marcas também. E acho justo", finaliza.

Rock in Rio terá atrações para diferentes públicos

O Rock in Rio 2026 que começa nesta sexta-feira será mais uma amostra de como todos esses fatores se acomodam em um grande festival. O desafio da organização é oferecer um evento atrativo para diferentes tipos de público, que varia a cada dia em função justamente do line-up.

Um dos dias mais esperados, de acordo com a velocidade com que os ingressos se esgotaram (em menos de duas horas), é 12 de setembro, que tem a banda pop Maroon 5 como headliner, mas também Demi Lovato e Pedro Sampaio como destaques.

O dia 7, com Elton John, deve atrair um público mais velho, enquanto o dia 11, com a banda de k-pop Stray Kids, é voltado aos mais jovens.

Entre as grandes atrações internacionais, estão os convidados nacionais - nenhum deles será headliner no Palco Mundo -, como Gilberto Gil, Ivete Sangalo, Marina Sena, Joelma, Detonautas, Capital Inicial e Guilherme Arantes.

Rock in Rio

- Dias 4, 5, 6 (esgotado), 7 (esgotado), 11, 12 (esgotado) e 13 de setembro.

- Cidade do Rock - Rio de Janeiro.

- R$ 870 (gramado)

- R$ 1.950 (comfort zone).

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