Nos últimos trinta anos, o setor de infraestrutura no Brasil deixou de ser centrado no Estado - com todas as suas ineficiências operacionais - para alcançar uma estrutura mais técnica, enxuta e diversificada, com participação do capital privado e novos mecanismos de financiamento.
O engenheiro Otavio Castello Branco não só fez parte dessa mudança como foi um dos grandes protagonistas dela, como o principal nome por trás do negócio de infraestrutura do Patria Investimentos. Castello Branco morreu neste domingo, 8, aos 67 anos, em Nova York, após complicações de um infarto sofrido há duas semanas.
Nascido em São Paulo em 28 de outubro de 1958, Otavio Lopes Castello Branco Neto formou-se em engenharia de produção na Escola Politécnica da USP (Poli-USP) em 1983. Começou sua carreira no mercado financeiro, nos bancos americanos Chase Manhattan e JP Morgan. Neste último, ficou até 2001, tendo presidido a operação brasileira do banco. Também foi diretor financeiro da Caemi Mineração, entre 1990 e 1995.
Em 2001, foi chamado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para assumir a diretoria de infraestrutura e energia do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Deixou o banco e se tornou conselheiro da Vale e da Eletrobras (hoje Axia Energia). Ajudou a fundar a Ersa, empresa de energias renováveis mais tarde adquirida pela CPFL.
Mas foi no Grupo Patria onde Otavio Castello Branco mais atuou. Convidado por Olímpio Matarazzo, fundador do Patria e seu amigo de infância, ele começou em 2003 a erguer o negócio de infraestrutura do fundo, que administrava até o ano passado US$ 44,7 bilhões em recursos (R$ 233 bilhões).
Em seu período no Patria, os fundos de infraestrutura comandado por ele arremataram em leilões de privatização lotes de linhas de transmissão de energia, aeroportos e obras de saneamento. "Antes, víamos um oligopólio no setor", disse Castello Branco, numa entrevista em 2017, analisando o setor de infraestrutura brasileiro, antes totalmente concentrado no setor público. "O Brasil, nos últimos 15 anos, conviveu com um modelo baseado na alta alavancagem, no alto subsídio. Os investimentos em infraestrutura eram feitos principalmente por meio de associações entre grupos de empresas de construção e capital estatal, com financiamento subsidiado. Isso criava uma situação artificial de competição. Esse modelo faliu. Estamos vivendo uma transição para uma maior racionalidade econômica."
"Otavio inovou, no Patria, ao criar fundos focados em investimentos em infraestrutura. Esse pioneirismo contribuiu para viabilizar projetos importantes, que ajudou a estimular o atual ciclo de investimentos em infraestrutura no Brasil", publicou a Associação Brasileira de Desenvolvimento da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib).
Em 2024, Castello Branco se afastou do Patria. Morando entre Brasil, Estados Unidos e Portugal, ele se dedicava à NCB Holdings, por meio da qual investia na Raiar, de ovos orgânicos, na ONG de proteção animal Onçafari e em itens esportivos (Z2 Performance e Slyce). Também era ciclista, tenista e judoca.
Em sua página no LinkedIn, o Patria publicou uma homenagem a Castello Branco. "Hoje nos despedimos de um líder extraordinário e, para muitos de nós, também mentor e amigo. Adeus, Otavio Castello Branco. Neste momento, nossos pensamentos e sentimentos estão, antes de tudo, com a família dele. Que encontrem força para enfrentar essa perda e este tempo de profundo anseio", diz a nota.
"Do nosso lado, carregamos gratidão eterna. Por sua dedicação, liderança e sua rara combinação de visão estratégica e humanidade. Seu impacto vive nas empresas e equipes que ajudou a construir, mas acima de tudo nas pessoas que teve o privilégio de orientar. Continuaremos a honrar e defender seus valores. Seu legado fará parte para sempre da história de Patria, hoje e sempre. Nossa eterna homenagem ao nosso parceiro."
"Católico fervoroso, viveu uma verdadeira história de amor. Amor de Cristo, que sacrifica. Colocava esse amor em tudo que fazia e em todos que encontrava. Sentirei muito a sua falta pai, só Deus sabe o quanto. Amo você eternamente", publicou, numa rede social, Victor Castello Branco, um dos quatro filhos do engenheiro, que também deixa a esposa, Luciana.
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