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No auge da pandemia, para driblar as incertezas, o diretor Gabriel Villela, de 67 anos, vasculhou as gavetas de seus armários. Encontrou um calhamaço xerocado de Medea, versão da tragédia grega assinada pelo filósofo Sêneca, guardada desde os tempos em que estudava na Escola de Comunicação e Artes da USP, na década de 1980. Ao ler o papel amarelado, enxergou uma fala de Medea que nunca mais saiu de sua cabeça: "Eu vou convulsionar o mundo", brada a personagem, no auge da fúria.
Chegara a hora de falar sobre isso, o mundo está em convulsão, o homem doente, e Medea, na visão de Sêneca, remete às disparidades evidenciadas nos últimos anos na política, no comportamento e até nas mudanças climáticas. "Não é compreensível que eu e meu elenco estejamos ensaiando em janeiro com casacos de frio", espanta-se o encenador. "A natureza se rebelou contra os absurdos cometidos pelo homem que parecem banalizados."
Como sempre, Villela converte o assombro em arte e, nesta quinta, 29, Medea estreia no Sesc Consolação - Teatro Anchieta como o grito de uma mulher que se revolta com a traição do marido e mata os próprios filhos. Em cena, a personagem é vivida por três atrizes, Rosana Stavis, Mariana Muniz e Walderez de Barros.
Rosana é a protagonista no presente, vivendo e narrando os fatos. Mariana é a Medea feiticeira, a simbologia da manipuladora dos venenos, e, por fim, Walderez representa a humanização. "Walderez é a hesitação, a dúvida, ela titubeia sobre a ação de voltar a fúria contra os nenéns", analisa Villela, que completou o elenco com os atores Jorge Emil, Claudio Fontana, Plínio Soares e Gabriel Sobreiro, além da atriz Letícia Teixeira.
Raramente montada no Brasil, Medea, de Sêneca, foi escrita quatro séculos depois da obra do grego Eurípides, a leitura mais conhecida. "Com Sêneca, ela vira um bicho, um ser desgovernado, enquanto em Eurípides é mais humana, feminina, até porque ele era mais machista", explica Villela.
Neste texto, o momento trágico da decisão, o assassinato dos filhos, se dá na frente da plateia, e o espectador não é poupado da violência. "Não podemos maquiar o mundo", diz. "Tão chocante quanto o que se ouve sobre o que acontece é o prazer das pessoas ao compartilhar imagens de atos aterrorizantes."
Enquanto o texto xerocado esperava na gaveta, Villela travou diferentes diálogos com o mito de Medeia em um longo caminho. Em 1990, a convite da atriz e produtora Ruth Escobar (1935-2017), dirigiu Relações Perigosas, montagem formada por três textos do dramaturgo alemão Heiner Müller (1929-1995), entre eles Medeamaterial, que mostra a heroína contra os abusos masculinos. "O caráter poético de Müller reelaborou o mito do casal Medeia e Jasão, mas Ruth reclamava de o texto ter sido escrito sem pontuação, achava difícil de decorar", diverte-se o encenador. "Sorte era ter a grande atriz Myriam Muniz como assistente de direção, e a ela Ruth obedecia."
Maturidade artística e pessoal
Em 2001, Villela levou aos palcos Gota d'Água, o musical de Chico Buarque e Paulo Pontes (1940-1976), que transforma Medeia em Joana, a moradora de um conjunto habitacional de periferia. Cleide Queiroz interpretou a protagonista, e Jasão era defendido por Jorge Emil, o mesmo ator que responde pelo personagem na atual encenação. "Joana era a mulher que reivindica a justiça social, mobiliza as pessoas contra a desocupação das moradias e não aceita ser descartada pelo marido", salienta.
Villela assume que para um mergulho profundo em Sêneca é necessário maturidade artística e pessoal. "Cheguei a São Paulo caipira demais, com o 'r' torto e complicado no sotaque e fui ensaiando o meu avanço", lembra o diretor, nascido em Carmo do Rio Claro, em Minas Gerais. Para ele, com mais de 50 espetáculos, é preciso seriedade ao lidar com temáticas delicadas, principalmente se vêm embaladas no simbolismo. "É como se elegêssemos o tema do infanticídio para ruminar no palco", afirma.
Diante da equipe, Villela não mede as exigências em busca do objetivo que julga ideal e repudia, por exemplo, a moda de atores e atrizes usarem microfones em cena. "Teatro é a arte da palavra e, caso você não tenha condições de falar no palco, procure outra profissão", avisa.
A atriz Walderez de Barros, de 85 anos, conhece bem o gênio de Villela e não esquenta a cabeça com os arroubos que vez por outra dominam o parceiro. Os dois trabalharam juntos pela primeira vez na peça A Ponte e a Água de Piscina (2002) e se reencontraram em Fausto Zero (2004), Hécuba (2011) e Rainhas do Orinoco (2016).
"O Gabriel é um poço de imaginação que corre a 200 quilômetros por hora e se irrita quando o ator não acompanha a velocidade", observa Walderez. "Sei que, depois de descarregar a impaciência, ele volta ao normal e não vou abrir desses processos, mesmo turbulentos, porque os resultados são ótimos."
Villela acompanha a intérprete desde a década de 1980 e confessa que guarda na memória a sua imagem no solo Madame Blavatsky, dirigido por Jorge Takla em 1985. "Eu fico impressionado com a inteligência dela que contrasta com a simplicidade na vida", elogia.
Sobre Medea, Walderez, que já personificou o mito grego em 1997, garante que descobriu um novo entendimento em relação às suas posturas e questionamentos. "Medea não pode ser confundida com uma mãe qualquer que mata os filhos e, neste texto, descobri a dimensão filosófica e literária", declara. "Por isso, implico com quem insiste em adaptar os clássicos, não precisa porque já está tudo lá."
Serviço
Medea
- Onde: Sesc Consolação - Teatro Anchieta. Rua Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque.
- Quando: Quinta a sábado, 20h; domingo, 18h. Até 8 de março
Preço: R$ 70. Ingressos estão esgotados online, mas podem ser comprados na bilheteria física.
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