A história da inovação costuma ser vista como uma história de rupturas e de ideias disruptivas, mas a verdade é que ela acontece de forma gradual, a partir de descobertas incrementais e em ambientes que a estimulam, sejam desenvolvidos pelo Estado ou por iniciativas privadas, defende o economista Marcos Lisboa, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e ex-presidente do Insper. E tudo isso só é possível depois de investimentos em educação de qualidade.
"Não existiu Revolução industrial, não existiu Segunda Revolução Industrial e a Inteligência Artificial não começou há poucos anos", afirmou ele no São Paulo Innovation Week, promovido pelo Estadão e Base Eventos, nesta quarta-feira, 13. "A Revolução Industrial demorou 80 anos desde a primeira máquina e terminou com outra bem melhor. Foram mais de 100 patentes e demorou três gerações."
Por sua vez, a IA tem origem nos anos 1930, com o britânico Alan Turing, com seus trabalhos de lógica, passando pelo surgimento da estatística bayesiana dos anos 1950 e pelos computadores das décadas seguintes, até chegarmos ao estágio atual. E a sua utilização também deve evoluir por gerações. "Eu vou usar mal, a minha filha vai usar melhor do que eu e o meu neto, melhor ainda. É um processo."
Lisboa participou do painel "Qual é a reforma que o Brasil mais precisa fazer e continua não tendo coragem de tocar?", mediado pela fundadora e CEO da Education Journey, Iona Szkurnik, mestre em Educação e Tecnologia por Stanford e fundadora do Brazil at Silicon Valley.
Para o economista, a criação de ideias, a partir de uma educação de qualidade, é a chave para o crescimento dos países. "As ideias têm um mérito, porque, mesmo que existam patentes, na hora que alguém inova sai todo mundo copiando, e a inovação se difunde", afirma.
Dessa forma, não haveria atalhos para a economia brasileira, a não ser investir em educação e construir ambientes de inovação. "A inovação é contínua. Quando começa a pesquisa, você olha e pensa: vai dar certo? Esse é o processo. É assim que países ficam ricos, que vacinas são desenvolvidas", diz. "Mas o processo vem de uma coisa, com gente bem formada. Não existiria o Vale do Silício sem a Universidade de Stanford."
A questão agora, diz ele, é como o País vai aproveitar as oportunidades que surgirão com a inteligência artificial. Lisboa é um forte crítico das políticas de subsídios utilizadas para sustentar setores pouco competitivos no Brasil, como as diversas tentativas de criar uma indústria de construção naval aqui, a Lei de Informática e a Zona Franca de Manaus.
Ele acredita, porém, que existem exemplos de sucesso de inovação local, que fizeram a diferença, e que todos seguiram o mesmo roteiro, primeiro formando pessoas e trazendo conhecimento, para depois dar resultados. Não importa se a iniciativa surgiu em governos ou no ambiente privado. "Criou-se uma dicotomia no Brasil, se devemos ter mais ou menos mercado. Mas esse é um debate tão superficial. Não tem mercado sem estado", defende. "A questão é como dar os incentivos corretos, como não deixar o Estado ser capturado por interesses. Em alguns setores, a regulação é muito importante, como em energia, saúde e educação", completa.
Segundo ele, os bons exemplos estão aí e precisam ser seguidos. "A gente sabe fazer direito. É copiar o Porto Digital de Recife e a Embrapa. Não vamos cair nas tentações do velho patrimonialismo, que atrapalha tanto a gente."
São Paulo Innovation Week
O São Paulo Innovation Week, maior festival global de tecnologia e inovação, é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, entre esta quarta-feira, 13, e sexta, 15. Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre muitas outras.
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