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Diário de Notícias

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Lula diz que Cuba passa fome por ação ou omissão de países ricos e cobra ajuda humanitária

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse nesta quarta-feira, 4, que Cuba, alvo de um bloqueio econômico dos Estados Unidos, enfrenta fome em razão da ação ou da omissão de outros países. A declaração foi feita durante discurso na 39.ª Conferência Regional da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para a América Latina e o Caribe.

"Cuba não está passando fome porque não sabe produzir. Cuba não está passando fome porque não sabe construir a sua energia. Cuba está passando fome porque não querem que Cuba tenha acesso às coisas que todo mundo deveria ter direito", afirmou o presidente.

No mês passado, o governo do presidente Donald Trump decidiu impor tarifas a países que comercializarem combustível com Cuba. Com a queda do presidente venezuelano Nicolás Maduro, Havana também deixou de ter acesso ao petróleo da Venezuela, o que agravou a crise energética e de abastecimento na ilha.

Lula vinculou a situação a uma perseguição ideológica, por se tratar de um governo comunista, mas afirmou que esse não seria o único caso de negligência internacional. Ele citou o Haiti, onde gangues controlam cerca de 90% da capital, Porto Príncipe, e que, segundo ele, também não recebe a ajuda humanitária necessária.

"Vamos supor que não se cuide de Cuba por uma perseguição ideológica. Então, não vamos ajudar Cuba porque é um país comunista? Ajuda o Haiti, que está ali do lado, que passa tanto ou mais fome do que Cuba e que está sendo dominado por gangues", disse.

O presidente cobrou dos países ricos um "gesto" para ampliar a ajuda humanitária a países em crise. "Tem tanta gente para ser ajudada, que está esperando um gesto. Um gesto desse crescimento econômico de todos os países, dessa concentração de riquezas", disse.

Lula também afirmou que o combate à fome não pode depender apenas de organizações não governamentais ou de recursos disponíveis apenas quando há sobra orçamentária. Segundo ele, parte do orçamento de ministérios como o Itamaraty e até das Forças Armadas poderia contribuir para políticas de combate à fome.

O presidente criticou ainda a prioridade dada por governos à política fiscal, sob influência do mercado financeiro e de organismos internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI).

"O mercado começa dia 1.º de janeiro preocupado com déficit fiscal e termina dia 31 de dezembro preocupado com déficit fiscal. Para eles não existe pobre, não existe problema. Ou seja, vamos jogar nas costas do povo pobre. Eles que paguem o preço", afirmou.

Como mostrou o Estadão, o governo Lula estuda formas de prestar apoio humanitário a Cuba diante do possível agravamento da crise de desabastecimento na ilha, sobretudo de medicamentos e alimentos.

Lula também afirmou que as "pessoas importantes do planeta", que deveriam estar preocupadas com a fome, estariam focadas em conflitos armados. A declaração foi interpretada como uma referência ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que lidera ataques contra o Irã.

Lula acusa ONU de ceder ao 'fatalismo dos senhores da guerra'

Além de criticar Trump, Lula dirigiu críticas às Nações Unidas, especialmente aos membros permanentes do Conselho de Segurança, ao comentar a guerra envolvendo o Irã e a situação na Faixa de Gaza.

"A ONU está cedendo ao fatalismo dos senhores da guerra e não tem espaço para os senhores da paz. Por que a ONU já não convocou uma conferência mundial para discutir esse conflito (Irã)?", afirmou.

O presidente disse que a organização internacional já deveria ter convocado uma reunião para discutir o conflito e voltou a sinalizar que não pretende aderir ao chamado Conselho da Paz proposto por Trump. Segundo Lula, a proposta de reconstrução da Faixa de Gaza equivaleria a construir resorts turísticos próximos aos locais onde morreram palestinos.

As declarações ocorrem em um momento em que Lula tenta viabilizar uma visita a Trump, em Washington. Os planos, no entanto, foram afetados pela eclosão da guerra envolvendo o Irã. O governo brasileiro condenou tanto o ataque inicial de Estados Unidos e Israel contra Teerã quanto a retaliação iraniana no Oriente Médio.

O presidente também voltou a questionar a duração da guerra na Ucrânia, iniciada após a invasão russa em fevereiro de 2022.

Lula discursou no Palácio do Itamaraty diante de representantes de países latino-americanos e caribenhos durante a reunião regional da FAO. O Brasil sedia a 39.ª Conferência Regional da organização para a América Latina e o Caribe.

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