Após trocas de sinal pela manhã, o dólar à vista se firmou em terreno positivo no perído da tarde desta segunda-feira, 4, em sintonia com o comportamento da moeda norte-americana no exterior, e fechou em alta de 0,30%, a R$ 4,9677. Ativos como bolsas e divisas emergentes sofreram com o aumento da percepção de risco geopolítico após relatos de ataques iranianos a instalações petrolíferas dos Emirados Árabes Unidos.
A ausência de sinais concretos de avanço nas negociações de paz no Oriente Médio ao longo do fim de semana - aliada à queda de braço entre Estados Unidos e Irã em torno do tráfego de embarcações pelo Estreito de Ormuz - avivou temores de abandono do cessar-fogo, impulsionando os preços do petróleo. O contrato do barril do tipo Brent para julho - referência de preços para a Petrobras - superou a marca de US$ 115 na máxima e fechou cotado a US$ 114,44, em alta de 5,8%.
O real apresentou perdas menores que as de seus principais pares, grupo que abrange as divisas latino-americanas, o rand sul-africano e moedas de países exportadores de commodities, como o dólar australiano e canadense. Analistas atribuem a resiliência do real ao fato de o país ser exportador líquido de petróleo, o que faz com que a escalada dos preços da commodity se traduza em melhora dos termos de troca. Outro ponto que joga a favor da moeda brasileira é a perspectiva de encurtamento do espaço para queda adicional da taxa Selic diante do choque energético.
Mesmo nos momentos de maior estresse da sessão, no início da tarde, o dólar permaneceu abaixo do nível de R$ 5,00, tocando máxima a R$ 4,9824. A moeda americana encerrou abril com perdas de 4,3% e no menor valor de fechamento desde 7 de março de 2024. No ano, o dólar recua mais de 9% em relação ao real, que tem, no período, o melhor desempenho entre as divisas mais líquidas, incluindo fortes e emergentes.
O economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, afirma que a escalada dos preços do petróleo levanta dúvidas sobre a magnitude e a continuidade do atual ciclo de "calibração" da taxa Selic pelo Banco Central. Ele ressalta que o próprio Comitê de Política Monetária (Copom) reconhece o aumento dos riscos inflacionários ao avaliar que a economia brasileira cresce acima de seu potencial.
"Talvez haja mais um ou dois cortes da Selic em 25 pontos-base. Mas não me surpreenderia se o BC adotasse uma postura mais conservadora, optando por uma pausa nesse ciclo de calibração diante de tantas incertezas", afirma Galhardo. "A perspectiva de que a taxa de juros seguirá elevada é suficiente para dar certa sustentação ao real em meio a episódios de escalada da moeda americana no exterior, como o de hoje".
Referência do comportamento da moeda americana em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY operou em alta e, após máxima aos 98,536 pontos, rondava os 98,400 pontos no fim da tarde, avanço de cerca de 0,30%. Euro e libra apresentaram perdas superiores a 0,20%. Além de a economia europeia ser a mais prejudicada pela escalada dos preços de energia, o euro foi abalado pela ameaça do presidente Donald Trump de elevar em 25% as tarifas sobre importações de carros e caminhões da União Europeia.
A alta do DXY não foi maior em razão da valorização da coroa norueguesa, favorecida pela alta do petróleo, e do fato de o iene ter operado ao redor da estabilidade, com viés de queda. Segundo relato da Reuters, a ministra das Finanças do Japão, Satsuki Katayama, alertou nesta segunda contra movimentos especulativos no câmbio. Houve suspeitas de intervenção do Banco do Japão (BoJ, na sigla em inglês) no mercado cambial na última quinta-feira.
As taxas dos Treasuries apresentaram alta firme, com o retorno do papel de 2 anos - mais ligado às expectativas sobre o rumo da política monetária - em alta de mais de 2%, acima de 3,95%, e com máxima perto de 4%. Ferramenta de monitoramento do CME Group mostra que as chances de alta de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) em março de 2027 voltaram a superar 50%.
Por aqui, a Bradesco Asset alterou a projeção para a taxa Selic no fim de 2026 de 12,75% para 13,50%, dada a piora das expectativas de inflação. Já a estimativa para a taxa de câmbio caiu de R$ 5,30 para R$ 5,10, diante de dados sugerindo um saldo comercial elevado neste ano, em razão das exportações de combustíveis e derivados. Além disso, a instituição observa que os Investimentos Diretos no País (IDP) seguem robustos, tendo superado o déficit em transações correntes nos últimos meses.
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