Após rondar a estabilidade ao longo da tarde, o dólar à vista encerrou a sessão desta quinta-feira, 2, cotado a R$ 5,1599 (+0,06), bem longe da máxima (R$ 5,1939) vista no início dos negócios. Operadores ressaltaram que o real resistiu bem ao aumento da aversão de risco no exterior, após discurso de quarta do presidente Donald Trump frustrar as expectativas em torno de um fim iminente do conflito no Oriente Médio.
O dólar termina a semana com baixa de 1,56% no mercado local e acumula, no ano, desvalorização de 6% em relação ao real, que apresenta no período o melhor desempenho entre moedas mais líquidas, incluindo divisas fortes e emergentes. Destaque também para o peso colombiano, um dos principais pare do real, com ganhos de quase 3% frente ao dólar em 2026.
O economista Gustavo Rostelato, da Armor Capital, observa que o fato de o Brasil ser exportador líquido de petróleo joga a favor do real, dado que arrancada nos preços da commodity se traduz em uma melhora dos termos de troca do País, levando a uma diminuição do déficit em transações correntes.
"Isso traz no curto prazo um viés favorável para o real, que tende a ter um desempenho superior ao dos seus pares", afirma o economista, ressaltando que a moeda brasileira tem como trunfo a perspectiva de manutenção de taxa real de juros elevada, mesmo com o início em março de um ciclo de cortes da taxa Selic pelo Banco Central.
Lá fora, o índice DXY - termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes - voltou a superar os 100,000 pontos, com máxima aos 100,263 pontos. Apesar do repique, o Dollar Index recua de cerca de 0,15% na semana. As taxas dos Treasuries terminaram a semana em baixa, com perdas acumuladas de quase 3% do retorno da T-note de 10 anos, na esteira dos temores de estagflação com o choque dos preços de energia.
As cotações internacionais do petróleo voltaram a disparar em meio ao noticiário da guerra. Após máxima a US$ 114 o barril, o contrato do WTI para maio fechou em alta de 11,4% a US$ 111,54 - maior nível desde 8 de março. Já o Brent para junho subiu 7,77%, a US$ 109,03 o barril. A notícia de que Irã e Omã trabalham em um novo protocolo para o tráfego de navios pelo Estreito de Ormuz, por onde é escoada 20% da produção global de petróleo, trouxe alívio momentâneo para os ativos de risco no fim da manhã, mas não foi capaz de conter os preços da commodity.
Após sinais de que pretendia abreviar o conflito no Oriente Médio, o que abriu espaço para recuperação dos ativos de risco nos últimos dias, Trump, em seu discurso na quarta à noite, ameaçou intensificar os ataques ao Irã nas próximas duas ou três semanas, mirando a infraestrutura energética do país. Mais: Trump se eximiu da responsabilidade por eventual reabertura do Estreito de Ormuz, argumentando que os EUA não dependem de petróleo importado do Oriente Médio, e instou outros países a comprar a commodity dos EUA ou a unir esforços para promover o desbloqueio do estreito, em um recado à Europa.
"O discurso de Trump foi pouco informativo sob a ótica de mercado, com forte viés voltado ao público doméstico e sem endereçar de forma clara os principais vetores de risco para os ativos globais", afirma o diretor de Pesquisa Econômica do Banco Pine, Cristiano Oliveira, ressaltando que Trump não fez menção a um possível cessar-fogo, afirmando "de forma pouco precisa que a operação estaria próxima do fim".
Na tarde desta quinta, Trump voltou a subir o tom ao dizer que "é hora de o Irã fazer um acordo antes que seja tarde demais". Mais cedo, o país persa afirmou ter atacado instalações de aço e alumínio dos EUA em países do Golfo, em retaliação a bombardeios contra siderúrgicas iranianas. Teerã também listou pontes relevantes no Oriente Médio que podem ser alvos de novos ataques.
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