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Após furar o piso de R$ 5,20 pela manhã, o dólar à vista ganhou força ao longo da tarde, quando operou pontualmente em alta, e encerrou a sessão desta quarta-feira, 28, estável, a R$ 5,2066. Segundo operadores, o dia foi marcado por ajustes de posições e realização pontual de lucros, após recente rodada de forte apreciação do real.
Parte da queda da manhã, quando a divisa tocou mínima a R$ 5,1713, foi atribuída a ajustes técnicos, uma vez que na terça à noite, com o mercado à vista já fechado, o dólar futuro para fevereiro apresentou um forte movimento de baixa, acompanhando o mergulho da moeda americana lá fora.
No início da tarde, o dólar à vista já operava em leve alta. A máxima da sessão, a R$ 5,2249, veio logo após o anúncio da decisão do Federal Reserve de manter a taxa básica de juros norte-americanos no intervalo entre 3,50% e 3,75%. Em entrevista coletiva, o presidente do Fed, Jerome Powell, fez alertas de praxe à inflação ainda elevada, mas pontuou que um enfraquecimento do mercado de trabalho seria "argumento" para cortar taxas.
Depois de tocar máxima aos 96,787 pontos, o índice DXY - que mede o comportamento da moeda americana em relação a uma cesta de seis moedas fortes - rondava os 96,400 pontos no fim da tarde. O dólar também reduziu os ganhos em relação a divisas emergentes e de países exportadores de commodities.
Espelhando a dinâmica externa, a moeda perdeu força na reta final do pregão e terminou o dia no zero a zero, ainda no menor valor de fechamento desde 28 de maio de 2024. A divisa recua 1,51% na semana e 5,14% em janeiro, após alta de 2,89% em dezembro. Em 2025, o dólar caiu 11,18%, maior baixa anual desde 2016. O real apresenta neste início de ano o melhor desempenho entre as divisas latino-americanas.
O economista-chefe da Western Asset, Adauto Lima, afirma que a apreciação do real é fruto da desvalorização global do dólar, insuflada por, basicamente, três fatores: a política econômica e comercial errática de Donald Trump, o aumento das incertezas sobre a condução da política monetária após a saída de Powell do Fed e um movimento de diversificação de carteiras com redução de exposição a ativos americanos.
"A desvalorização do dólar é global. Não é um movimento idiossincrático. O real tem uma performance um pouco melhor pela questão do diferencial de juros e porque o Brasil é exportador de commodities metálicas, que tiveram um aumento expressivo de preços", afirma Lima.
O economista ressalta que há muitas dúvidas sobre como será o comportamento do Fed com a substituição de Powell, cujo mandato termina em maio, por nome escolhido por Trump. Há temores em relação à independência do BC americano com tentativa de ingerência política nas decisões, observa. "E mesmo se não houver ingerência, não se sabe qual vai ser a cabeça desse novo Fed. Isso pode afetar o desempenho do dólar", afirma Lima.
A decisão do BC norte-americano de manter a taxa básica inalterada não foi unânime. Os diretores Stephen Miran e Christopher Waller divergiram e votaram por um corte de 25 pontos-base. Miran foi indicado por Trump e já criticou diversas vezes a gestão da política monetária. Waller é um dos cotados para assumir a presidência do Fed. Powell disse em entrevista não acreditar que o BC dos EUA vai perder sua independência.
"A nomeação do próximo presidente do Federal Reserve tende a alterar a dinâmica da condução da política monetária, concentrando as expectativas principalmente no segundo semestre", afirma o estrategista-chefe da RB Investimentos, Gustavo Cruz. "A partir daí, o novo dirigente pode adotar uma postura mais firme em favor de cortes de juros, em linha com os interesses do presidente Donald Trump".
Por aqui, a expectativa majoritária é que o Comitê de Política Monetária (Copom) anuncie nesta quarta à noite manutenção da taxa básica em 15% ao ano. As atenções estarão voltadas ao comunicado, que pode trazer sinais de início de um ciclo de corte de juros a partir de março.
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