A confiança dos brasileiros no sistema eleitoral tem diminuído nos últimos anos, em um movimento impulsionado pela polarização política e pela circulação de desinformação nas redes sociais, segundo análise publicada pelo veículo britânico The Economist no último domingo, 31.
A publicação afirma que, embora não existam evidências de fraude nas eleições, críticas recorrentes ao modelo de votação, citado como "o único no mundo que é inteiramente eletrônico", afetaram a percepção pública sobre a integridade do processo eleitoral.
A reportagem afirma que as urnas eletrônicas completaram 30 anos em um contexto em que o lançamento do mascote Pilili e os esforços de comunicação e aproximação com a população do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não dão conta de reverter a queda da confiança dos brasileiros nos pleitos.
"A desconfiança no sistema eleitoral tem sido impulsionada pela polarização e pela desinformação online, não por fraude comprovada. Mas sua complexidade técnica facilita a disseminação de informações falsas", afirma o periódico.
Pesquisa do Latinobarómetro citada pelo veículo britânico apontou que, em 2009, 45% dos brasileiros acreditavam que as eleições eram confiáveis, enquanto 47% consideravam o processo fraudulento. Em 2024, o índice dos que confiavam nas eleições caiu para 32%, enquanto 61% afirmaram suspeitar da ocorrência de fraudes.
Segundo The Economist, uma parcela considerável da direita brasileira adotou o discurso contra as urnas eletrônicas, principalmente nas redes sociais. "Os candidatos contestaram o resultado das eleições gerais em 2014, 2018 e 2022. Se o resultado deste ano for apertado, o perdedor poderá mais uma vez alegar fraude", diz a reportagem.
A revista cita ainda ataques promovidos pelo ex-presidente "populista de direita" Jair Bolsonaro (PL) que "inundaram a internet" durante sua campanha pela reeleição, em 2022, e observa que esse discurso segue sendo reproduzido por aliados do ex-presidente.
Seu primogênito, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), chegou a afirmar durante a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), em março deste ano, que venceria as eleições caso elas fossem "livres e justas", sugerindo que um resultado diferente poderia indicar fraudes no processo.
The Economist avalia que o sistema foi criado para enfrentar as fraudes em eleições com cédulas de papel, que tinham problemas como votos preenchidos previamente por cabos eleitorais e cadastros com nomes de pessoas mortas ou inexistentes. O TSE, observa, realiza periodicamente testes públicos de segurança nos quais especialistas e cidadãos podem tentar identificar vulnerabilidades no sistema.
Ainda assim, a tendência de queda de confiança nas instituições pode influenciar a percepção dos eleitores. A revista menciona críticas relacionadas à composição da Corte Eleitoral, que conta com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), e cita como exemplo a atuação de Alexandre de Moraes tanto na presidência do tribunal durante as eleições de 2022 quanto, posteriormente, na relatoria de processos relacionados à tentativa de golpe de Estado por Jair Bolsonaro.
Segundo o periódico britânico, a presença do ministro Nunes Marques, indicado ao STF por Bolsonaro, na presidência do TSE, pode aplacar os ataques bolsonaristas às urnas de forma provisória.
0 Comentário(s)