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Colapso da Moratória da Soja ameaça a Amazônia e coloca exportações brasileiras em risco

Um dos acordos ambientais mais importantes da história recente do Brasil está em colapso — e as consequências podem ser devastadoras tanto para a floresta amazônica quanto para o agronegócio nacional. A chamada Moratória da Soja, pacto voluntário firmado em 2006 entre as maiores tradings de grãos do mundo, o governo federal e a sociedade civil, está sendo desmantelada por uma combinação de pressões políticas, decisões jurídicas e interesses econômicos.

O acordo, em vigor desde 2008, estabelecia que as empresas signatárias não comprariam soja produzida em áreas desmatadas da Amazônia após julho daquele ano. O resultado foi considerado histórico: segundo o Greenpeace, a participação da soja em áreas recentemente desmatadas caiu de 30% antes do acordo para apenas 4% em 2025, mesmo com o Brasil tendo triplicado sua produção no período. Estudiosos chegaram a classificar a moratória como "a política de desmatamento zero mais bem-sucedida do mundo".

O início do fim veio com uma lei aprovada pelo estado de Mato Grosso — o maior produtor de soja do país — que entrou em vigor em janeiro de 2026 e retirou incentivos fiscais das empresas participantes do acordo. Diante da ameaça de perder bilhões de reais em benefícios, a Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais), que representa gigantes como Bunge, Cargill e Amaggi, anunciou sua saída da moratória. Em paralelo, o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) abriu investigação contra as empresas signatárias, alegando possível formação de cartel entre concorrentes.

Os impactos potenciais são alarmantes. Um estudo do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) aponta que o fim da moratória pode elevar em até 30% a área desmatada na Amazônia até 2045. Pesquisadores da UFMG, do ICV e da Trase calculam que mais de 13 milhões de hectares de vegetação nativa estão em risco. Para piorar o cenário, o enfraquecimento do acordo ocorre justamente quando a lei antidesflorestamento da União Europeia (EUDR) começa a entrar em vigor — o que pode barrar exportações brasileiras ao bloco. Supermercados britânicos e redes varejistas europeias já enviaram cartas às tradings sinalizando que continuarão exigindo soja livre de desmatamento, independentemente da existência da moratória.

Para ambientalistas, a ruptura representa um retrocesso gravíssimo. "Manter a moratória significaria ser coerente com promessas feitas a investidores e mercados internacionais. Sair significa assumir o risco ambiental, reputacional e entregar uma soja ligada ao desmatamento", alertou o coordenador de campanhas do Greenpeace Brasil, Rômulo Batista. O STF acompanha o caso e deve decidir nos próximos meses sobre a validade da lei estadual de Mato Grosso — decisão que pode selar o destino definitivo da moratória e, com ela, de milhões de hectares da maior floresta tropical do mundo.

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