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Associação diz que falta de vacina causou morte de bebês Yanomami; governo nega

O presidente da Urihi Associação Yanomami, Hekurari Yanomami, afirmou nesta sexta-feira, 27, que a causa da morte de bebês por coqueluche no território é fruto da falta de vacinas.

Em entrevista ao Estadão, Hekurari afirmou que o governo federal não enviou imunizantes para o território Yanomami, deixando bebês vulneráveis à doença. Em nota, o Ministério da Saúde negou que haja fragilidade no programa de vacinação e afirmou que a cobertura vacinal na região para crianças menores de um ano dobrou nos últimos três anos (leia mais abaixo).

A vacina pentavalente, que previne contra coqueluche, difteria, tétano, hepatite B e infecções por Haemophilus influenzae b faz parte do calendário vacinal estabelecido pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI). As doses devem ser ministradas no segundo, no quarto e no sexto mês de vida da criança.

Até o momento, três mortes em decorrência da doença foram confirmadas pelo ministério. Lideranças indígenas, no entanto, afirmam que o número deve ser maior. De acordo com a pasta, há 16 casos confirmados da doença e seis dos pacientes estão internados.

"O que significa para o governo, para o Ministério da Saúde, o valor de uma vida do povo Yanomami, de uma criança?", questiona Hekurari. "Minha comunidade está enfrentando surto de coqueluche, já removeram crianças, são recém-nascidas, são meses de idade. Não ouviram o som da floresta e morreram de coqueluche por falta de cuidado, porque o Ministério da Saúde e o governo não mandaram as vacinas."

O Estadão entrou em contato com a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) para abordar o tema. Em nota, a Coiab afirmou que não recebeu informações que confirmem a falta ou o atraso no envio de vacinas para o território Yanomami.

A entidade diz que está ciente da denúncia e mantém o monitoramento da situação para identificar eventuais falhas no abastecimento de imunizantes ou no acesso aos serviços de saúde.

"Caso sejam constatadas irregularidades ou desassistência, a Coiab poderá acionar os órgãos competentes e reforçar a cobrança por medidas urgentes, considerando a vulnerabilidade sanitária dos povos indígenas e a importância da vacinação para a prevenção de surtos e agravamentos de doenças evitáveis", diz o comunicado.

Vacinação

No dia 23 de fevereiro, as associações Urihi e Hutukara enviaram um ofício aos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) Yanomami e Ye'kwana, à Secretaria de Saúde Indígena do Ministério da Saúde e à Casa de Governo em Roraima (representação do governo federal) para questionar não terem sido avisadas sobre o surto. As associações indagam o motivo de o alerta epidemiológico ter sido disparado apenas no dia 19 de fevereiro e dizem que mesmo durante reunião com os DSEI, no dia 20 de fevereiro, não foram avisadas sobre a classificação de surto.

O plano de contingência do surto elaborado pelo ministério mostra que, até 19 de fevereiro, apenas 56% dos bebês abaixo de um ano de idade estavam com o esquema vacina completo no polo base de Surucucu, o principal do território.

Os dados divulgados nesta sexta-feira, 27, informam um porcentual de 57,8% das crianças nessa faixa etária com a vacinação em dia em todo território Yanomami. Segundo a pasta, o índice é praticamente o dobro do registrado em 2022, quando 29,8% dos bebês estavam imunizados.

Força-tarefa

O ministério criou uma força-tarefa para responder ao surto. Desde o início de fevereiro, a pasta afirma ter realizado 1.048 atendimentos e vacinado 108 indígenas no DSEI Yanomami. Informa ainda que foram feitas 350 ações de quimioprofilaxia, ou seja, administração de medicamentos preventivos, para coqueluche.

"Além do reforço da vacinação, está sendo realizada busca ativa e coleta de material de análise clínica. Todos os pacientes com suspeita de coqueluche e contactantes estão em tratamento e acompanhamento do seu estado de saúde", diz a nota da pasta.

O território Yanomami enfrenta uma crise nos últimos anos. Ao assumir o governo federal, em janeiro de 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou o território e decretou estado de emergência, fortalecendo a atuação de equipes sanitárias e de assistência social no local.

O governo realizou ações de retirada de garimpeiros ilegais do território e reabriu polos de saúde que estavam fechados. Apesar da intensificação das medidas de socorro, em janeiro de 2024, o governo reconheceu que, até ali, as ações não haviam dado conta do problema.

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