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Andreas Kisser fala sobre último EP do Sepultura, parcerias e o show 'único' no Rock in Rio

O Sepultura, banda que mudou a música pesada nacional e consagrou-se como um nome importante do cenário internacional, está prestes a dizer adeus dos palcos após mais de quatro décadas de estrada.

Com poucos shows restantes de sua turnê de despedida, o quarteto faz uma parada importante no Rock in Rio, em sua última vez no festival. O grupo fez história no evento, e seu guitarrista Andreas Kisser adiantou ao Estadão como será a apresentação deste sábado, 5, que contará inclusive com as músicas do EP The Cloud of Unknowing, lançado em abril deste ano.

Na conversa, o músico também compartilhou histórias por trás do disco, além de narrar a experiência de ter participado da gravação do disco novo de Bruce Dickinson, que ele disse remeter às "coisas do Sepultura", e como isso o deixou lisonjeado. Leia abaixo a conversa.

O Rock in Rio se aproxima, juntamente com o encerramento da turnê, e este show terá um repertório mais focado na fase do Derrick. Como que foi esse processo de, de certa forma, desapegar de clássicos da era do Max, como a própria 'Roots Bloody Roots', 'Refuse, Resist', para priorizar canções como 'Kairos', 'Phantom Self'?

Todas essas músicas já tocamos ao vivo. Obviamente, o repertório do Derrick faz parte do nosso repertório normal de set. Juntando toda a história de Sepultura, não temos um setlist dividido por época ou por formação. Tocamos tudo, desde do Bestial Devastation, que saiu em 1985, até o último, The Cloud of Unknowing, que inclusive temos tocado quase que o disco inteiro. No Rock in Rio vamos apresentar esse EP inteiro.

Inclusive a música Sacred Books, pela primeira vez. E não é a primeira vez que fazemos um setlist conceitual. Quando o Eloy Casagrande entrou na banda, fizemos uma turnê europeia, junto com o Exodus e uma outra galera do thrash metal, só tocando um período da carreira da banda, do Beneath the Remains, do Arise e o Chaos A.D.

E é sempre um desafio, organizar uma lista de músicas que você já está mais ou menos acostumado. As músicas têm uma certa posição no setlist, que usamos como base. Eu acho que é um grande desafio. É muito legal. Acho que o Rock in Rio sempre abriu espaço para a gente fazer shows especiais, shows únicos, como o Zé Ramalho, como o Les Tambours du Bronx, a apresentação do Machine Messiah, o do Quadra.

É o último show [no festival] que vamos fazer. Temos uma história espetacular [com o Rock In Rio], fantástica, desde 1991, que tocou no Maracanã. E desde então, tocamos em todos os Rock in Rios, pelo mundo, Las Vegas, Lisboa, Brasil. E mais uma vez, temos essa oportunidade de apresentar algo único. Então está sendo muito legal trabalhar esse setlist de uma maneira nova, diferente. E vai ser um show único, exclusivo, e que não vai acontecer mais.

Eu queria voltar e falar um pouco a respeito do 'The Cloud of Unknowing'. Então, ele não estava exatamente nos planos originais para ser lançado agora na turnê de despedida, certo?

Não tinha plano de gravar nada, de escrever nada. Quando anunciamos a Farewell Tour, a ideia era realmente fazer os shows, estender o máximo possível, porque oportunidades foram aparecendo, como Lollapalooza, Islândia e outras coisas que apareceram pelo caminho. Sempre deixamos claro que era para realmente expandir essas possibilidades, porque é a última, então vamos fazer tudo o que é possível no mundo. Geralmente quando lançam um disco, elas têm três anos de turnê, etc. Então é mais ou menos o que durou essa turnê, que está durando.

Mais especificamente agora sobre 'Beyond the Dream' [faixa de 'The Cloud of Unknowing']. Ela foi composta com o Tony Bellotto e o Sérgio Britto. Então como que foi para vocês pegar algo que músicos como eles fizeram e transformar em algo que era do Sepultura?

Eu e o Derrick trabalhamos com o Tony e o Sérgio, que são amigos de longa data, irmãos, famílias que se conhecem e tudo. Temos um relacionamento muito mais do que ídolo, de influência musical, artística, mas de pessoal mesmo, de se conhecer e passar por várias fases juntos. E os dois são os compositores de Polícia, que é uma música também que faz muito parte da história do Sepultura, nossa versão muito tocada e conhecida no mundo inteiro.

E eles escrevem baladas sensacionais na história dos Titãs, isso naturalmente como eles fazem. Sentimos que precisávamos de alguma ajuda para fazer uma música como essa. E a química foi sensacional. Começamos a trocar algumas ideias pela internet, depois nos encontramos em São Paulo, desenvolvemos a ideia junto com violão e possibilidades. Quando fomos para o estúdio, nós gravamos, e tocar essa música ao vivo está sendo maravilhoso, porque o disco surgiu de uma forma espontânea.

Não tinha data de lançamento, não tinha pressão de gravadora ou de imprensa, de capa, entramos lá só para fazer música. E depois de um ano que o disco saiu. Aproveitamos essa oportunidade para fazer essa balada, que sempre foi uma vontade, desde que o Derrick entrou na banda, pela possibilidade vocal que ele trouxe para a banda. Porque ele canta muito bem também, não tem só essa coisa gutural e agressiva, mas ele usa a voz melodicamente muito bem, ele tem uma técnica espetacular. E isso abriu essas possibilidades novas para a música do Sepultura.

Recentemente você gravou a percussão no novo álbum do Bruce Dickinson, então como foi para você, que é uma referência dentro da música pesada, ser convidado para tocar ao lado de um dos maiores nomes do metal?

Sensacional! Uma coisa completamente inesperada também. Estava em Los Angeles, através de amigos em comum, brasileiros que estão trabalhando lá também, no álbum, produzindo junto com o Bruce.

Fomos no estúdio do Dave Grohl, onde ele estava gravando, e eu pude ouvir um pouco do que está acontecendo lá, e está muito pesado, acho que é o trabalho mais pesado que o Bruce Dickinson deve ter feito na história, e estou muito feliz, porque eu fui fazer lá uma participação de percussão junto com ele, e é uma coisa muito parecida com as coisas do Sepultura, fiquei até lisonjeado, pela homenagem e tudo, e o Derrick também está participando, além de alguns outros músicos, e ele realmente está abrindo espaço, está trazendo para perto essa cena mais pesada do metal, que obviamente foi influenciada pelo Iron Maiden até hoje, são os grandes mestres da história, pioneiros do metal mundial.

Bruce Dickinson é um cara que eu sei que respeitei muito, não só pelo que ele fez no Iron Maiden, mas pela trajetória dele, como piloto, como palestrante, lutador de esgrima, é um cara que surpreende, de realmente expandir as possibilidades de um músico, como pessoa também, aproveitar essa oportunidade de viajar o mundo, e realmente ter essa liberdade de exercer, essa coisa do avião do Iron Maiden, ele pilotando, é muito legal isso, de você ver como ele é um cara muito pé no chão.

Acabamos de tocar com o Iron Maiden também em um festival na Europa, e ele foi no camarim lá, trocar uma ideia com a gente e tudo, e depois ficou ali com a galera jogando pebolim, aquelas máquinas de pebolim do Iron Maiden, trocando ideia com todo mundo, comendo junto com a galera ali, um cara muito tranquilo.

Muito legal fazer parte de um trabalho com um mestre desse, e ver que ele realmente curte o que faz, e em muitos aspectos ainda tem essa alma jovem, de estar muito feliz e ansioso, para colocar esse trabalho novo, e muito feliz de fazer parte disso, para um garoto do ABC Paulista, que é fã de Iron Maiden, fazer parte de um disco assim é surreal.

Show do Sepultura no Rock In Rio

Quando: 5 de setembro;

Onde: Palco Mundo;

Horário: 16h40

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