Uma pesquisa publicada recentemente na revista Nature Communications, com participação de pesquisadores da Unicamp, revelou um mecanismo surpreendente: espermatozoides de indivíduos obesos carregam excesso de um microRNA chamado let-7, que prejudica a produção de energia nas células dos descendentes.
Em outras palavras, a obesidade do pai pode literalmente deixar uma "marca biológica" no espermatozoide que é transmitida ao bebê na concepção.
Em experimentos com camundongos, a prole de machos obesos nascia com peso completamente normal — mas com o passar dos dias, apresentava intolerância à glicose e resistência à insulina, condição para o desenvolvimento de diabetes do tipo 2. Os cientistas chamaram isso de "disfunção metabólica silenciosa".
O que acontece dentro do embrião?
O excesso de let-7 nos espermatozoides é transferido ao zigoto durante a fecundação. Dentro do embrião, esse excesso inibe a produção de uma enzima chamada DICER, essencial para a regulação de muitos genes. Com a DICER inibida, as células do embrião crescem com prejuízos no funcionamento das mitocôndrias — as organelas responsáveis por produzir a energia celular.
A boa notícia: é reversível
O emagrecimento do pai antes de ter um filho reverte completamente esse risco herdado. Quando os genitores perdiam peso, as "marcas" deixadas pela obesidade no sêmen desapareciam — algo que depois foi validado em análises feitas em humanos.
E nos humanos?
Os achados foram testados em 15 homens adultos com obesidade grau severo, com IMC médio próximo de 40. Os mesmos sinais de acúmulo de let-7 observados nos ratos foram encontrados nesses indivíduos.
Por que isso é importante? Até hoje, o foco do planejamento familiar recaía quase exclusivamente sobre a saúde da mãe durante a gravidez. Essa descoberta muda a equação: a saúde do pai antes da concepção também tem impacto direto na saúde metabólica dos filhos — e adotar hábitos mais saudáveis pode fazer diferença não só para ele, mas para as próximas gerações.
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