0

Diário de Notícias

DN.

A brasileira que dançou onde nenhuma estrangeira havia chegado — e agora é homenageada em Nova York

Uma história de superação, arte e representatividade brasileira ganhou destaque nesta semana nos Estados Unidos. A bailarina brasileira Bethania Nascimento F. Gomes retornou aos palcos de Nova York como grande homenageada na reestreia do balé O Pássaro de Fogo, da renomada companhia Dance Theatre of Harlem — a mesma onde ela escreveu história duas décadas atrás.

Quem é Bethania: Nos anos 2000, Bethania foi intérprete do papel principal desse balé — uma versão afro-caribenha do clássico russo de Igor Stravinsky. Em 40 anos de história da Dance Theatre of Harlem, apenas dez bailarinas ocuparam esse papel central. Bethania foi a única brasileira e a única estrangeira entre todas elas. Com a montagem, ela percorreu mais de 20 países, passando por Austrália, Nova Zelândia, China e Europa, sendo promovida a primeira bailarina da companhia.

A luta por trás do palco: A trajetória não foi fácil. Bethania enfrentou racismo no início da carreira no Brasil, que a impediu de seguir no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Foi nos Estados Unidos que encontrou o espaço para se consagrar. Ela conta que a mãe, a intelectual Maria Beatriz Nascimento, a sustentou nos momentos mais difíceis mostrando-lhe revistas com fotos de bailarinas negras — imagens que, para ela, eram prova de que era possível.

O recado que ela deixa: Ao celebrar a homenagem, Bethania não poupou críticas ao cenário atual dos palcos brasileiros. "Quando você chega ao Theatro Municipal, no Brasil, para assistir a um balé, o que você vê?", questionou, apontando a sobrerrepresentação de bailarinas brancas num país onde a maioria da população é afrodescendente. Para ela, a homenagem em Nova York é também uma celebração coletiva. "Esse evento é uma forma de celebrar a nossa história, enquanto mulheres negras. Há muita invisibilidade."


Curiosidade cultural: O balé O Pássaro de Fogo foi composto pelo russo Igor Stravinsky em 1910 e é considerado uma das obras mais importantes da dança clássica do século XX. A versão da Dance Theatre of Harlem transformou esse clássico europeu em uma celebração afro-caribenha — e foi justamente nessa versão que uma brasileira negra, vinda do Rio de Janeiro, chegou ao topo. Uma história que mistura Rússia, Caribe, Harlem e Brasil de um jeito que ninguém poderia imaginar roteirizar.

0 Comentário(s)

Faça login para comentar.