O fogo e a fumaça são vistos a distância, mas outro inimigo que ronda o Pantanal do Mato Grosso é invisível. Apesar da pandemia de covid-19 ter reduzido o fluxo de turistas dessa época do ano, grupos de visitantes que chegam por ar e terra a partir de centros urbanos podem trazer o novo coronavírus para ribeirinhos que estão a 150 km de um hospital. Nas comunidades localizadas na extremidade final da Rodovia Transpantaneira, a quase 300 quilômetros de Cuiabá, os protocolos sanitários inexistem. Idosos convivem sem máscaras e crianças brincam na beira de rios, de onde partem forasteiros em busca dos animais típicos.

A eventual entrada da doença na região de Porto Jofre pode ser devastadora num lugar isolado de equipamentos estatais. Para serviços médicos e fúnebres depende-se da estrutura de Poconé e Cuiabá. Não raro, nativos enterram entes em jazigos dentro das propriedades rurais.

No Pantanal, predomina a versão de que o vírus não é páreo para o calor de mais de 40°C. Em bate-papo com a reportagem em uma roda, moradores justificam a falta de máscara. "Covid não sobrevive aqui não", diz um deles, sem lembrar que o micro-organismo circula no ar e pode ser transmitido num aperto de mão.

A primeira referência médica para assuntos relacionados à covid-19 na região fica no centro de Poconé, cidade de 32 mil habitantes. Os sinais de que o Brasil vive uma pandemia que matou 3.082 pessoas em Mato Grosso estão em algumas pousadas. Os visitantes chegam de máscaras de proteção fácil, mas logo se distraem com piscinas e cervejas. O calor que chega aos 45 ºC é um desestímulo à proteção.

A população desconhece casos de infecção nas redondezas, mas quem interage mais intensamente com turistas prefere a cautela. Em uma pousada visitada pelo Estadão, às margens do Rio Cuiabá, em Porto Jofre, a 145 quilômetros de Poconé, luvas e máscaras são exigidas na retirada do café da manhã. "O coronavírus não me preocupa, eu só uso a máscara por respeito às demais pessoas", disse o engenheiro civil holandês Jean-Paul Middel, 33 anos. Ele ostentava uma máscara com desenho de um tucano. O estrangeiro sentiu que era hora de um período fora da Europa e quis que o risco valesse à pena. Pela primeira vez, foi parar no coração do Pantanal.

A doença, no entanto, não faz distinção das vítimas. Em julho passado, um dos líderes da etnia xavante em Mato Grosso, o cacique Domingos Mahoro, de 60 anos, morreu infectado pela doença. Diabético e hipertenso, o cacique morreu na capital mato grossense após ser transferido do interior do Estado. Mahoro, que era da aldeia Sangradouro, localizada próxima do município de General Carneiro (MT), era uma importante liderança indígena para a etnia xavante da região.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.