O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse na manhã desta terça-feira, 27, que, apesar da interrupção da retomada da atividade econômica no começo do ano, os dados mais recentes apontam para o reinício desse processo. Segundo ele, os dados do BC apontam para estabilidade ou ligeiro crescimento no segundo trimestre de 2019.

"Nosso cenário supõe que essa retomada ocorrerá em ritmo gradual", enfatizou, em audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado.

Campos Neto lembrou que os resultados do Produto Interno Bruto (PIB) serão divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na próxima quinta-feira, 29. "Com base nos dados disponíveis, estimamos que o PIB tenha ficado estável ou crescido ligeiramente. Para os trimestres seguintes esperamos alguma aceleração, que deve ser reforçada pelo efeito da liberação de recursos do FGTS e PIS-Pasep" , acrescentou.

Mais uma vez, o presidente do BC destacou a importância da continuidade da agenda de reformas fiscais, sobretudo em um contexto de pouco espaço fiscal para investimentos públicos.

"Ao reduzirem incertezas fundamentais sobre a economia brasileira, as reformas tendem a estimular o investimento privado. Entendemos que uma retomada mais robusta da economia depende também da agenda microeconômica, que inclui iniciativas que visam ao aumento de produtividade, ganhos de eficiência, maior flexibilidade da economia e melhoria do ambiente de negócios", repetiu Campos Neto.

Choques

O presidente do Banco Central disse que a economia brasileira tem sofrido diversos choques ao longo dos últimos anos, mas destacou a consolidação da credibilidade da política monetária do BC nos anos recentes. Ele lembrou que, após o pico de 10,7% em 2015, a inflação atual em 12 meses está em 3,22%. "Diversas medidas de inflação subjacente se encontram em níveis confortáveis, inclusive os componentes mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária. As expectativas de inflação permanecem ancoradas em torno das metas", enfatizou.

Ele citou que as projeções de inflação para 2022 convergiram para a meta de 3,5% logo após a sua definição em junho. "A consolidação da inflação em torno da meta e a ancoragem das expectativas de inflação têm permitido a redução consistente da taxa de juros", destacou. "O presente processo de flexibilização monetária tem levado também à queda da taxa de juros real ex-ante, que se encontra atualmente em torno de 1,7% ao ano, nível que tende a estimular a economia", acrescentou.

Campos Neto repetiu os principais pontos da ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que reduziu a Selic para 6,0% ao ano. "Nossa avaliação é que o balanço de riscos para a inflação evoluiu de maneira favorável, mas consideramos que o risco relacionado às expectativas de andamento das reformas e ajustes ainda é preponderante", repetiu, em referência ao documento.

O presidente do BC também citou a ata ao afirmar que a consolidação do cenário benigno para a inflação prospectiva deverá permitir novos cortes na taxa de juros. "É fundamental enfatizar que essa comunicação não restringe a próxima decisão do Copom e que os próximos passos da política monetária continuarão dependendo da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação", afirmou, conforme já constava na ata.

Cenário externo

Campos Neto disse ainda que o cenário externo se mostra benigno, em decorrência das mudanças de política monetária nas principais economias. Ele avaliou ainda que há uma janela de oportunidade para os países que aprovarem reformas econômicas.

Apesar do afrouxamento das condições financeiras globais, Campos Neto ponderou que os riscos de uma desaceleração da economia mundial permanecem. "As incertezas sobre políticas econômicas e de natureza geopolítica - notadamente as disputas comerciais e tensões geopolíticas - podem contribuir para um crescimento global ainda menor", afirmou, em audiência pública na CAE do Senado.

O presidente do BC voltou a destacar que a economia brasileira tem capacidade de absorver um eventual revés no cenário internacional, com um balanço de pagamentos robusto, expectativas de inflação ancoradas, e perspectiva de retomada do processo de recuperação econômica. Campos Neto citou ainda o nível atual das reservas internacionais em cerca de US$ 389 bilhões. "A robustez da economia brasileira frente aos riscos do cenário externo também depende da perspectiva de continuidade das reformas estruturais, no que esta Casa tem fundamental relevância", afirmou aos senadores.

Segundo ele, o alivio nas condições financeiras internacionais é uma janela de oportunidade para países que realizem reformas. "Vejo que estamos aproveitando essa janela. O trabalho deste Congresso, do Governo e do Banco Central tem resultado em quedas expressivas do prêmio de risco do Brasil. Atualmente, o grau de risco da economia brasileira, percebido por agentes de mercado, é compatível com uma melhoria em nossa nota pelas agências de avaliação de risco", acrescentou.