Ao andar pelas ruas da Cidade do Panamá é possível notar o grau de idolatria das pessoas por Roberto 'Mano de Piedra' Durán. Estátuas, fotos e desenhos são vistos por todos os lugares. Sua casa, única em um bairro recheado de prédios e estabelecimentos comerciais, é uma atração turística. Na porta, cerca de dez carros luxuosos ocupam até mesmo as calçadas. Aos 68 anos, apontado pela revista norte-americana The Ring como o terceiro maior pugilista de todos os tempos, atrás apenas de Muhammad Ali e Joe Louis, o ex-boxeador se eternizou ao ser protagonista do documentário Im Duran (Eu Sou Durán), que estreia quinta-feira, 29, nas plataformas de streaming Now, Sky Play, Apple TV e Google Play.

O diretor britânico Mat Hodson disse que o documentário custou cerca de US$ 1 milhão e foi mais fácil de fazer do que se imaginava. "Todas as personalidades convidadas aceitaram participar rapidamente e sem cobrar cachê. Apenas pela amizade e admiração que têm por Durán", disse o cineasta, referindo-se aos ex-lutadores Mike Tyson, Sugar Ray Leonard, Oscar De La Hoya e Iran Barkley, e os empresários Don King e Bob Arum, além dos atores Sylvester Stallone e Robert De Niro. Em 1h24 de produção, os amantes da nobre arte poderão rever momentos históricos de Durán contra Sugar, Thomas Hearns e Marvin Hagler. E seus quatro títulos mundiais (leves, meio-médios, médios-ligeiros e médios). Durán falou com exclusividade ao 'Estado':

O que achou do documentário?

Temos material para fazer mais dois documentários. Muita história ainda. Mas o que posso destacar é a presença de pessoas tão importantes falando de mim com tanto carinho como Mike Tyson e Sugar Ray Leonard. Por isso, digo que tudo que fiz valeu a pena.

O senhor imaginava ser personagem de um documentário?

Nunca pensei ser boxeador, quanto mais ser campeão mundial ou personagem de cinema. Quando era garoto, gostava de ir ao cinema para ver filmes sobre luta livre. Eu via os mexicanos, porque os americanos eu tinha de ler e eu não sabia ler direito, porque minha mãe me mandava para a escola e meu pai me tirava de lá. Eu só precisava de 35 centavos para ficar o dia todo no cinema e ver seis, sete filmes. Eu levava um pedaço grande pão e uma garrafa de água e passava o dia.

Como entrou para o boxe?

Comecei no boxe por engano. Fui ser boxeador como poderia ter sido maratonista. Tínhamos fome e precisávamos de dinheiro. Minha primeira luta como profissional foi em 1968. Lutei na cidade de Colon (a segunda maior do Panamá). Venci os quatro rounds e ganhei a luta. Recebi US$ 25.

Existe um boxeador na atualidade como foi Roberto Durán?

Não sei dizer, mas acho difícil. Comecei a lutar muito cedo e tive várias escolas. Lutei de 1968 a 2001. Foram 103 vitórias, 70 nocautes e 16 derrotas. Ou seja, tive tempo de aprender muito com muita gente. Para ser um grande lutador é preciso lutar como amador, passar para profissional e enfrentar os melhores. Atualmente, tudo é muito rápido.

O dinheiro atrapalha?

O dinheiro não, mas a grande quantidade de dinheiro, sim. Para eu ganhar US$ 500 mil ou US$ 1 milhão, era preciso lutar pelo título mundial e contra um grande adversário. Hoje, um jovem faz três lutas e já está milionário. Ele não terá de se sacrificar mais.

Concorda com aqueles que apontam Floyd Mayweather como o melhor do século 21?

Ele ganhou de Manny Pacquiao, né? Mas acho o Canelo (Saul Alvarez) muito bom. Olha, uma vez o Sugar Ray Leonard disse para o Mayweather na minha frente: você não poderia limpar nossos sapatos. E eu concordo com Leonard.

A América Latina produziu grandes boxeadores. O senhor, o argentino Carlos Monzón, o mexicano Julio Cesar Chávez e o brasileiro Eder Jofre. Quem foi o melhor depois do senhor?

(risos) Sei do grande talento de Jofre, mas não vi suas lutas. Monzón foi muito grande, teve duelos incríveis. Mas Chávez foi o melhor. Cada um foi o melhor em sua época.

Como o senhor gostaria de ser lembrado na história?

Sou lembrado pelo povo panamenho todos os dias e tenho muito orgulho disso.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.