Vou devassar meu interior, vasculhar todos os cantos, fazer a faxina anual, apesar de começar agora o ano, mas, mesmo assim, pinçar lá no fundo, no porão onde são guardadas as lembranças, todas aquelas que ali habitam sem autorização, com prazo vencido, invasoras indesejadas, num verdadeiro processo de despejo coletivo. Talvez seja o ritual de lavar a alma, como as baianas fazem ao lavar as escadarias, expurgar todos os fantasmas que, como ébrios, deambulam pelas minhas estreitas veredas, impingindo medo e me expulsando do paraíso da inocência.

Vou procurar viver melhor o tempo, ter uma equivalência de custo e benefício com ele. Sei que é infinito, mas me consome de uma forma finita. A cada dia que passa, é uma página retirada da folhinha da parede. Olho para trás e não consigo ver o rastro do meu andar itinerante. Penso em pedir para que ele pare que evite este corre-corre para que eu possa ir lentamente até a esquina buscar meu sonho utópico de felicidade e voltar. E daí sentar no banco da praça, olhar para o nada e ver o tempo passar. Então, qual peregrino, sigo o meu tempo, sabendo que a avalanche vem descendo, me empurrando cada vez mais para o futuro incerto.

Vou ajustar os ponteiros do meu emocional e racional. Estabelecer regras fixas para dividir o terreno de cada um, sem invasão. Apesar dos dois habitarem o mesmo espaço, terão tarefas distintas. O emocional passará por uma reforma integral onde seus cacos disformes serão encaminhados para restauração. Uma nova estrutura será edificada tendo como suporte uma sensibilidade que floresça sem provocação artificial, como foi direcionada pelo mundo digitalizado. O racional continuará sua tarefa, menos ridículo e mais sábio, calibrado pela precisão do pensamento ponderado e inteligente. Afinal, sou um homem emprestado para o mundo, mas me pertenço.

Vou mudar meus hábitos e deixar de quixotear contra a ética dos homens, para ser mais um que guarda o silêncio comprometedor. Como uma antena, vou sorver o pensamento das pessoas e sugar a força do universo, quem sabe possa entrar no perene carnaval que mal cobre a nudez moral com o brilho da lantejoula. O certo e o errado se confundem, o crime e o pecado se mesclam e o mundo cada vez mais estranho e conturbado continua na sua escalada de demolição de valores. A paranóica sensação de viver corretamente transmite uma reação de torpor que amortece os sentidos. A soma de prazeres vem embalada em seringas ou drágeas, num coquetel de cores sem qualquer conteúdo, exibindo publicamente a degradação e vulgaridade. É a lei da liberdade sem peias, sem limites, sem ordem e sem rumo.

Vou investir nos conceitos considerados pré-requisitos para a vida real: civilidade, benignidade, prudência, sobriedade, temperança, vigilância, humildade e honestidade. Criar uma verdadeira área de meditação sobre a topografia interior e disseminar seu conteúdo pragmático para aqueles que procuram pelo brilho do olhar limpo e não pela mirada opaca dos homens de palha. Encher a cidade de outdoors incentivando a extirpação do ódio, do orgulho, da violência, da vingança, do cinismo, da mentira e do egoísmo. Criar cruzadas de solidariedade empunhando com entusiasmo a bandeira da raça humana.

Vou me aproximar mais da natureza, aspirar o ar incondicionado e puro, apreciar o verde dos campos com todas suas tonalidades, o azul do céu e os desenhos infantis das nuvens, o rio que carrega suas águas de forma caudalosa e silenciosa, o brotar das flores no embalo do canto dos pássaros.

Vou buscar uma alma rural, primeva. Vou sim.

 

Eudes Quintino de Oliveira Júnior - Promotor de Justiça aposentado, advogado e reitor da Unorp - Centro Universitário do Norte Paulista.