A relação entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o escritório de advocacia da mulher do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, ganhou um novo capítulo. Um relatório da Polícia Federal de 218 páginas, produzido a partir da análise do celular de Vorcaro, aponta que ele teria negociado a transferência de cotas de um jato e de um helicóptero como forma de pagamento por serviços advocatícios prestados pelo escritório Barci de Moraes. O documento passou a circular publicamente em 1º de setembro de 2026, depois que o ministro André Mendonça derrubou o sigilo da Petição 16.662, que tramita no STF.
Segundo a apuração da PF, o contrato teria sido firmado em 12 de maio de 2025 entre a Vikings Participações, empresa ligada a Vorcaro, e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advocacia, com duração de 36 meses. O valor girava em torno de R$ 50 milhões — alguns documentos citam até R$ 60 milhões —, sendo cerca de R$ 40 milhões quitados com a cessão de cotas de um jato Legacy 650, avaliado em US$ 5,51 milhões, e de um helicóptero EC 155 B1, de US$ 1,33 milhão. Os R$ 10 milhões restantes apareceriam como reembolso de despesas com voos. Em mensagens recuperadas pelos investigadores, um sócio da Prime You, empresa especializada em compartilhamento de bens de luxo, pergunta à advogada Viviane Barci de Moraes se ela estava satisfeita com as cotas, e recebe como resposta que estavam "gostando muito".
O escritório nega. Em manifestação divulgada pela imprensa, a banca afirmou que mantinha apenas uma contratação, referente ao Banco Master, e negou qualquer transferência ou substituição de contrato, sustentando que nenhuma proposta foi aceita e que nada foi assinado. Esse primeiro contrato, de janeiro de 2024, previa cerca de R$ 108 milhões líquidos em três anos — R$ 131,3 milhões em valores brutos —, pagos em 36 parcelas mensais. A PF sustenta ainda que houve tentativa de reestruturar o acordo por meio de outra empresa para evitar o que os envolvidos chamavam de "risco reputacional" de o escritório figurar formalmente como sócio das aeronaves. Alexandre de Moraes, o STF e a Procuradoria-Geral da República não se pronunciaram sobre o conteúdo do relatório até o fechamento desta edição.
Vale registrar que nada disso está comprovado judicialmente: trata-se de um relatório de investigação, cujas conclusões ainda serão avaliadas pelo Ministério Público e pelo próprio Supremo. Vorcaro está preso no Distrito Federal, no âmbito da Operação Compliance Zero, que apura fraudes no Banco Master e a tentativa de compra da instituição pelo BRB. Ele prestou depoimento à PF por videoconferência em 28 de agosto, por cerca de quatro horas e meia, e, segundo sua defesa, respondeu de forma "clara e consistente" a todas as perguntas e negou qualquer ato de corrupção. A OAB já pediu apuração sobre o caso, e a repercussão política cresce a poucos meses do calendário eleitoral.
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