Uma em cada cinco gestantes brasileiras não recebe exames de pré-natal na forma recomendada, em especial mulheres indígenas. Os achados são de um novo estudo realizado por pesquisadores do Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas (ICEH/UFPel), em parceria com a Umane, publicado nesta segunda-feira, 13.
Segundo Luiza Eunice, pesquisadora da UFPel e responsável pelo estudo, houve uma mudança recente na recomendação do Ministério da Saúde (MS). Anteriormente, o mínimo recomendado era de seis consultas, mas, a partir de 2024, esse número subiu para pelo menos sete consultas. A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é de oito consultas.
"O pré-natal previne a mortalidade materna, a mortalidade infantil, parto prematuro e baixo peso ao nascer e complicações gestacionais", explica a pesquisadora.
"Os exames acontecem de forma distribuída porque, no início, é importante identificar grupos que estão em alto risco; no meio da gestação, é importante para monitorar o crescimento fetal e, no final, detectar alguma doença e prevenir a prematuridade", acrescenta.
Desigualdade
De acordo com o estudo, a cobertura é de 99,4% na primeira consulta e cai para 78,1% na sétima consulta, e os índices são piores entre mulheres sem escolaridade, indígenas, adolescentes e moradoras da Região Norte.
No recorte racial, a situação das indígenas é a mais alarmante. Entre as mulheres brancas, 84,3% concluem as sete consultas de pré-natal. Entre as indígenas, esse porcentual cai para 51,5%. Entre as pretas e pardas, os percentuais são de 75,7% e 75,3%, respectivamente.
Entre a primeira e a sétima consulta, a cobertura entre mulheres indígenas cai 46,2 pontos porcentuais (p.p.), o triplo da queda observada entre mulheres brancas (15,3 p.p.). Em quase metade dos casos, a gestante indígena começa o pré-natal, mas não termina.
"Para as mulheres indígenas, existem barreiras geográficas e logísticas, como transporte fluvial e distâncias longas. Há também barreiras culturais, com modelos de cuidado que não se adaptam às realidades indígenas", ressalta a pesquisadora.
Escolaridade
Outra intersecção de destaque é a escolaridade. Entre mulheres com 12 anos ou mais de estudo, 86,5% chegam à sétima consulta. Entre as sem escolaridade, menos da metade chega ao mesmo ponto: 44,2%.
"Mulheres com baixa escolaridade têm mais dificuldade em entender a importância das consultas durante a gestação. Há também barreiras práticas: transporte, trabalho e dificuldade para entender como o sistema de saúde funciona", pontua Luiza.
Entre as indígenas sem escolaridade, apenas 19% completam as sete consultas. Entre as brancas com 12 anos ou mais de estudo, esse porcentual chega a 88,7%.
"Nesses casos, a gravidez costuma ser descoberta tarde e o pré-natal começa tarde também. Há o medo e o estigma, a ocultação da gestação e a dependência da família para chegar à consulta", cita Luiza.
Estratégia
Para a pesquisadora, um dos principais achados do estudo é que não é necessário apenas elevar o padrão de qualidade do atendimento, mas sim diminuir as desigualdades e garantir o acesso para todas as gestantes.
Para isso, ela recomenda a adoção de estratégias. Uma delas já foi incorporada pelo Ministério da Saúde: a Rede Alyne, programa focado na redução da mortalidade materna e infantil. A meta é reduzir em 25% a mortalidade materna geral e em 50% entre mulheres negras até 2027.
Luiza defende também políticas intersetoriais, que vão além da saúde para enfrentar as barreiras sociais, culturais e econômicas que afastam as gestantes do sistema. Entre essas barreiras, ela aponta o racismo estrutural, que afeta tanto a oferta quanto a qualidade do atendimento.
Outro ponto é a navegação dentro do sistema. Monitorar e facilitar o percurso da mulher até a sétima consulta é, segundo a pesquisadora, uma condição para garantir o acompanhamento completo.
Quanto à saúde sexual e reprodutiva, ela recomenda programas que promovam a autonomia de meninas e mulheres, com atenção especial ao enfrentamento da violência sexual contra adolescentes.
Para Evelyn Santos, gerente de investimento e impacto social da Umane, esse tipo de análise é fundamental para identificar desigualdades e orientar o desenvolvimento de políticas públicas. "Com estas informações, a gestão pode atuar para ampliar a cobertura de pré-natal com foco nos grupos mais vulneráveis", destaca.
Metodologia
O estudo utilizou dados públicos do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), do Ministério da Saúde. As informações são registradas em todos os hospitais brasileiros a cada nascimento vivo.
Para visualizar as desigualdades, os pesquisadores aplicaram o equiplot, um método gráfico desenvolvido pelo próprio centro. A ferramenta posiciona indicadores de saúde segundo critérios de desigualdade e mostra a distância entre grupos populacionais, como mulheres brancas e indígenas ou de alta e baixa escolaridade.
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