A entrada em vigor da tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos a parte dos produtos brasileiros amplia as incertezas sobre a economia e encontra as famílias em um cenário de elevado endividamento e forte dependência do crédito para manter despesas cotidianas. Levantamento divulgado pela Serasa mostra que três em cada dez consumidores utilizam o cartão de crédito para cobrir gastos do dia a dia, enquanto os juros cobrados das pessoas físicas permanecem em patamares elevados.
A nova taxação norte-americana começou a valer na quarta-feira, 22 de julho, e alcança uma parcela das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos. Segundo estimativa do governo federal, os produtos atingidos representam cerca de 18% das vendas nacionais ao mercado norte-americano, o equivalente a aproximadamente US$ 7,4 bilhões, com base nos embarques de 2024. A medida pode afetar setores como siderurgia, alumínio, calçados, máquinas e outros segmentos da indústria.
Embora o impacto das tarifas não seja transmitido automaticamente ao consumidor brasileiro, a redução das exportações pode afetar a produção, os investimentos e o nível de emprego nas atividades mais expostas aos Estados Unidos. A busca de empresas por outros mercados e a possível ampliação da oferta de determinados produtos dentro do país também podem alterar preços e margens, enquanto a instabilidade comercial tende a dificultar decisões de contratação e expansão.
Esse novo fator de pressão surge em um momento no qual o crédito já ocupa espaço relevante no orçamento doméstico. De acordo com a primeira edição do Mapa de Crédito da Serasa, 63% dos brasileiros utilizaram cartão de crédito nos últimos 12 meses. Entre os entrevistados, 30% recorreram à modalidade para despesas diárias, 29% para compras específicas e 18% para emergências relacionadas à saúde. A possibilidade de parcelamento foi apontada por 41% como uma das principais razões para o uso do cartão.
O levantamento também revela que outras modalidades são procuradas para reorganizar as finanças. Entre os usuários de empréstimo pessoal, 34% contrataram crédito para pagar dívidas ou contas atrasadas. No consignado, a organização da vida financeira aparece como uma das principais finalidades, citada por 35% dos consumidores. Os dados indicam que, para uma parcela da população, o crédito deixou de ser utilizado apenas em compras de maior valor e passou a funcionar como complemento da renda mensal.
As condições de financiamento, no entanto, aumentam o risco de endividamento prolongado. Dados mais recentes do Banco Central mostram que a taxa média do crédito livre para as famílias chegou a 62,8% ao ano em maio. A inadimplência das pessoas físicas alcançou 5,6%, enquanto, somente nas operações de crédito livre, chegou a 7,6%. O endividamento das famílias correspondia a 49,8% da renda acumulada em 12 meses, e 28,2% da renda estava comprometida com o pagamento de dívidas.
Para reduzir os efeitos do tarifaço sobre a atividade econômica, o governo federal anunciou R$ 18,5 bilhões em linhas de financiamento destinadas principalmente às empresas afetadas. Desse total, R$ 13,5 bilhões deverão vir do Tesouro Nacional e R$ 5 bilhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Os recursos poderão ser usados em capital de giro, compra de máquinas, investimentos e abertura de novos mercados, mas a liberação ainda depende de aprovação do Congresso.
A estratégia busca impedir que a perda de competitividade nos Estados Unidos resulte em cortes de produção e demissões no Brasil. Para as famílias, o principal risco é que uma eventual desaceleração da atividade econômica reduza a renda disponível justamente quando o orçamento já está pressionado por dívidas e juros altos. Nesse contexto, a utilização do cartão para alimentação, contas e outras despesas essenciais evidencia a vulnerabilidade financeira de parte da população diante de novos choques econômicos.
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